quarta-feira, 28 de maio de 2014

"A Chacina do PAAR"



 
 
14 de Maio de 1995, quinze dias antes da “Chacina”, os policiais Mauro França, Paulo Jorge e Sérgio Rocha prenderam Joanilson Lopes Moreira, vulgo “Nego Jô”, sobre a suspeita de ter roubado uma bicicleta.



Joanilson Lopes
Durante a prisão, Joanilson, foi agredido fisicamente, e levado à Delegacia de Polícia do PAAR localizada na AV. Rio Negro, onde foi apresentado ao delegado José Marques e posteriormente colocado no xadrez. Na delegacia, Joanilson sofreu novas agressões físicas e, ainda, foi obrigado, pelos mesmos policiais, a ingerir fezes, com a finalidade de forçá-lo a fornecer informações sobre “Paulo Mapará”, pessoa conhecida no meio policial daquela época como “bandido perigoso”, por estar envolvido em roubos a banco e outros crimes de maior repercussão, além de liderar um grupo criminoso do qual Joanilson seria um dos integrantes.

Na manhã do dia seguinte, Joanilson, que ainda permanecia detido, teria sido obrigado a capinar a área externa do prédio da delegacia, em seguida os policiais exigiram a quantia de quatrocentos reais em dinheiro, cujo pagamento, efetivado por familiares de Joanilson, neutralizou a ação dos policiais, que imediatamente o colocaram em liberdade.
 

A "Chacina"


Na noite de 29.05.95, quinze dias após a prisão e a tortura de Joanilson, a “Chacina do PAAR” e seus desdobramentos aconteceria. A equipe de plantonistas da delegacia do Paar era composta por um delegado, uma escrivã, quatro investigadores (dentre os quais havia uma investigadora) e um motorista policial.


  Delegado José Marques 
 Naquela noite, o delegado José Marques e o investigador Mauro França estavam dentro de uma sala, identificada como o “gabinete do delegado”, assistindo televisão. A escrivã Maria e a investigadora Erondina estavam no hall de entrada do prédio, nesse mesmo local, deitado em um colchonete, estendido no chão e encostado numa parede, estava o investigador Paulo Jorge. O terceiro investigador e o motorista policial da equipe tinham ido até um borracheiro consertar um dos pneus do carro que atendia à delegacia. Portanto, às 23:3023, horário aproximado da invasão, estavam no prédio apenas cinco pessoas, sendo que, somente as policiais, por estarem acordadas e próximas da entrada, tinham a possibilidade de notar a chegada de alguém. Ao ouvir que um carro estacionara em frente à delegacia, a policial Erondina caminhou até a porta para ver quem havia chegado. Surpreendeu-se quando viu cinco homens armados empurrarem-na e entrarem na delegacia, perguntando pelos policiais. Em meio ao tumulto causado por aqueles homens armados dentro da delegacia, Erondina correu para o quintal do prédio, escondendo-se num matagal que ficava atrás da caixa d’água.
A policial Maria foi colocada contra a grade, enquanto era ameaçada com armas para dizer onde estavam os policiais. Nesse momento, um deles, seguido dos demais, empurrou a porta do gabinete do delegado, onde os dois policiais, o investigador Mauro França estava sentado em uma cadeira em frente à mesa do delegado, enquanto este se encontrava deitado em um colchonete estendido no chão. Vários tiros foram disparados contra eles. Ao tentar se levantar, provavelmente para ver o que estava acontecendo, o investigador Paulo Jorge, que estava deitado na permanência da delegacia, também foi morto.
Enquanto atiravam contra seus colegas, Maria escondeu-se dentro do banheiro da delegacia, onde permaneceu até que os tiros cessassem. Quanto à Erondina, assim que percebeu que os homens haviam se retirado, retornou para dentro da delegacia, solicitando, pelo rádio, ajuda aos outros policiais, ao mesmo tempo em que tentava relatar o que havia acontecido.
 
 
A Caçada aos assassinos
 Assim que a informação sobre a morte dos policiais foi divulgada, dezenas de policiais dirigiram-se para a delegacia do PAAR, de onde iniciaram uma “caçada” aos responsáveis pelas mortes. Partindo da informação da escrivã Maria que reconheceu, dentre aqueles que invadiram a delegacia e atiraram contra seus colegas, um homem (Joanilson) que alguns dias antes havia sido levado preso para a delegacia do PAAR, sob a acusação de roubo de uma bicicleta, a polícia iniciou suas investigações.
Depois de atirarem no delegado e nos dois investigadores, os cinco homens fugiram, tendo três deles (“Paulo Mapará”, “Ronaldo Mapará”27 e “Martinho Cara de Lata”28) se refugiado numa área conhecida como “Mata da Ceasa”.
"Paulo Mapará"
Nesse ínterim, alguns policiais já haviam identificado Joanilson Lopes Moreira, como o homem que foi preso e torturado pelos policiais e que foi reconhecido. A partir dessa informação, os policiais concluíram pela possibilidade do envolvimento de “Paulo Mapará” no caso, já que, quando Joanilson foi preso na delegacia do Paar acusado do roubo da bicicleta, houve comentários de que este seria “um informante da quadrilha de um elemento conhecido pela alcunha de ‘Paulo Mapará”.
Uma grande operação composta por cerca de duzentos policiais, entre civis e militares, foi organizada para encontrar Joanilson, “Paulo Mapará” e seus companheiros. Depois de vinte horas de
perseguição contínua, a primeira morte aconteceria. “Ronaldo Mapará” (Irmão de Paulo Mapará), foi morto próximo ao trapiche da Ceasa, na madrugada de 31.05.95. Na manhã do mesmo dia, “Martinho Cara de Lata” também morreria. Quanto a “Paulo Mapará”, foi morto no início da madrugada do dia seguinte. Nessa mesma madrugada, seu corpo foi colocado no porta-malas de um carro da polícia32 e exposto pelas ruas de Belém, numa carreata policial animada por disparos de armas de fogo.

Corpo de Paulo Monteiro exposto em carreata policial (O Liberal, de

02.06.1995).

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